Home Data de criação : 07/04/21 Última atualização : 10/02/06 02:20 / 103 Artigos publicados
 

A MEIO.  escrito em sábado 06 fevereiro 2010 02:20

Sentou-se na areia fria e cruzou as pernas. Fixou o olhar no mar e as lágrimas quase que se tornavam bebíveis de tão fortemente lhe escorrerem pela face, igualmente gelada.

Os dias de Fevereiro serão sempre uma incógnita de sol, vento e chuva. Quase que as estações se trocam entre si e rodam à volta de dias mais ou menos equivalentes ao esperado. Às vezes parece que a fortaleza do Inverno é de tal modo agreste que tudo se ergue e move; outras, no entanto, o sol espreita nas árvores ainda despidas e as ondas deste e doutros mares amansam calorosamente, terminado sempre em espuma.

Naquele dia os pensamentos germinavam em torno de sonhos ainda não concretizados e quase que adiados por tempo indeterminado. E custa sempre retirar dos planos objectivos que acarretam sorrisos silenciosos. Na verdade, o acto de projectar pode trazer tanto de bom como de mau. Não sei qual a melhor vertente desta ambivalência, mas todas as decepções magoam e custam a aceitar. É assim em tudo o que move as vidas.

Ajeitou-se naquela areia e instintivamente enterrou os dedos nas partículas finas que, de um momento para o outro, se podem tornar pó.

O céu estava a ganhar a cor de gente crescida e quase que se dividia em três camadas. De facto, a imaginação faz milagres. As mãos estavam cada vez mais enterradas na areia e a vontade das afundar ali mesmo era tão forte como a de deitar cá para fora tudo o que sentia. Por momentos, a solidão ajuda-nos a descomprimir e a encaixar dissabores.

Ele, ainda não vos disse, mas era um jovem de trinta anos. Talvez sem nome. Quase que na flor da idade, a avaliar pelas experiências tardias que a (in)dependência familiar vai causando.

Eu, apesar de ter sonhado com ele e de ter acordado com esta imagem que vos descrevi, também não sei encadear os motivos.

Que cada um os interprete da melhor forma. Ou que cada transporte a vivência pessoal para supostas causas.

O que sei, isso sim, e lembro-me claramente, é que o céu estava lindo e, juntamente com a areia, quase que fazia as tais três camadas.

Há, na realidade, sonhos que ficam a meio. Por completo, só a esperança de terem continuidade. Como acontece aqui.

(A fotografia tem um ano, tirada na Costa da Caparica)

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PERFEITA LUZ  escrito em sábado 06 fevereiro 2010 00:46

Encanta-me desde sempre o reflexo da luz que, numa qualquer analogia metódica, acaba por ser o retrato vivo da alma que habita em cada um de nós.

Julgo entender que a luz proporciona-nos um tal estado de acalmia e de segurança que, só por si, já é mais facilitadora de boas energias. E quem não precisa deste bem tão precioso para se aconchegar numa ou noutra vida, num ou noutro projecto?

São também com luz os dias cheios e vigorosamente ocupados. Às vezes quase que em sucessão analítica e estratificada: isto, aquilo e o resto. Depois aparecem os momentos com luz que, como a imagem retrata, terminam com talheres usados, paladares descobertos, risadas, conversas e partilhas. E gostarei sempre de momentos assim. Por mim e pelos outros.

Em agradecimento, obrigado!

A confusão dos grandes sítios começa, em maior escala, quase que a abafar o que penso ser e sentir. E encantam-me os lugares magicamente especiais. Aqueles que se transformam e nos transformam. E gosto da mistura de culturas e de ambientes que vagueiam entre o mítico, o místico e a mestiçagem dos dias que correm.

E é assim que se aprende, creio eu, a retirar dos pequenos prazeres a vida. Usa-se mais a expressão ao invés, não é (retirar da vida os pequenos prazeres!)? Pois bem, mas a mim apetece-me trocar e inverter o mundo das palavras e nele quase que emergir à deriva.

Tenho pena que se olhe, em muitos momentos, para fotografias destas e não se sinta o calor desta luz.

Peço desculpa pelos talheres desalinhados. São um mero pormenor em comparação com o saboroso scone e a luz da vela, a tal.

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ANTES DE ADORMECER...  escrito em terça 02 fevereiro 2010 02:31

Há dias em que quase que sentimos a terra a fugir-nos da alma. Na verdade, talvez seja eu que ainda não sei dosear bem a diferença entre fugir e ficar. Nunca se sentiram assim? Aquela satisfação plena de estarmos envolvidos em milhentas coisas (é o sangue a correr nas veias e a glorificar um empenho que se conjuga meticulosamente) e, ao mesmo tempo, de quase não conseguirmos saborear tudo. Isso custa-me. Mas é a vida a dar de si. E acredito que até nós vem sempre o que é bom e belo. E mais não chegará (bons pensamentos em serões de plena exaustãoJ)!

Gosto da agitação, porém, adoro deitar-me na cama, fechar os olhos dois minutos e pensar em palavras e pessoas bonitas. Na família, nos amigos. E revive-se em escassos segundos o agradecimento que, quase sempre, fica por dar às pessoas pelo simples facto de fazerem parte da minha vida e, assim, alegrarem as minhas horas

Depois deste exercício mental, gosto de pegar num livro e ler. Actualmente não consigo ler mais de meia dúzia de páginas…adormeço profundamente e  noite dentro acordo mal deitado, com a luz acesa e o livro já na outra ponta da cama.

(…)

E gosto de ter vários livros junto à cama, ainda que não leia mais do que dois de cada vez. Neste momento leio “Não digas a ninguém” de Luísa Castel-Branco (e estou a gostar!) e “Idades, cidades, divindades” de Mia Couto. Um registo de prosa e outro de poesia, consoante os dias. Na lista dos próximos está “O Perfume” (já quase toda a gente leu…e eu nunca!) e um que me foi oferecido esta semana “Inteligencia emocional – La sabiduría del corazón en la salud y en la acción social” (apesar de ser espanhol, parece-me de fácil leitura e gosto muito do título).

Claro que, como quase sempre, a acompanhar o que sou está uma caixinha de chocolates. Adoça-me a alma e quase que me faz saborear com mais prazer as histórias entre as páginas.

Para já, um até logo! Bem-haja por aqui virem!

 

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HOJE O DIA SABE-ME A VIDA!  escrito em segunda 01 fevereiro 2010 23:48

"Morre lentamente quem não viaja,

Quem não lê,

Quem não ouve música,

Quem destrói o seu amor-próprio,

Quem não se deixa ajudar.

 

Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito,

Repetindo todos os dias o mesmo trajecto,

Quem não muda as marcas do supermercado,

não arrisca vestir uma cor nova,

não conversa com quem não conhece.

 

Morre lentamente quem evita uma paixão,

Quem prefere O "preto no branco"

E os "pontos nos is" a um turbilhão de emoções indomáveis,

Justamente as que resgatam brilhos nos olhos,

Sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.

 

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho,

Quem não arrisca o certo pelo incerto atrás dum sonho,

Quem não se permite, Uma vez na vida,

fugir de conselhos sensatos.

 

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte

ou da Chuva incessante,

Desistindo de um projecto antes de iniciá-lo,

não perguntando sobre um assunto que desconhece

E não respondendo quando lhe indagam o que sabe.

 

Evitemos a morte em doses suaves,

Recordando sempre que estar vivo exige um esforço

muito maior que o Simples acto de respirar.

Estejamos vivos, então!"

 

Pablo Neruda

 

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PESSOAS  escrito em sábado 30 janeiro 2010 02:00

Haverá sempre gestos que, por tão simples que são na minha mente, me custam a entender na dos outros. Não quero, de todo, com isto dizer que penso de uma forma soberbamente adequada ou a mais correcta, mas, pelo menos, aquela que me faz respirar, na maioria das vezes, a consciência e o espírito.

Gosto de pessoas. E gosto das sentir e acolher. Adoro conversas do tudo e do nada. E gosto de tocar e olhá-las. Na verdade, acho que até gosto demais das pessoas. São, talvez, caprichos eloquentes ou desadequados desta sociedade pós-moderna (de moderna nem sei se tem muito!), mas acredito que continuarei sempre a preservar o contacto com os outros e o que de bom daí advém.

Sabem, gosto das pessoas. E gosto de almas e de pensamentos. De sonhos e de partilhas. De cafés demorados com umas quantas novidades. E gosto de agradecer, também, pelo bem que me fazem.

Às vezes, ou talvez só hoje, pergunto-me se vale sempre a pena pensar desta forma e acarretar o restante. E chego à conclusão que talvez valha. Ou que vale mesmo.

Gosto de pequenas coisas. Daquelas que tendemos a esquecer-nos por serem tão pequenas. Considero até mesmo que os grandes feitos nunca têm uma dimensão real se não forem acompanhados de partículas pequeninas de pormenores. E, em mim, há-de será sempre a questão do pormenor que fará a diferença.

Gosto de tempo. E de ter tempo. E de gerir tempo. E de arranjar tempo. E gosto de mil e um afazeres que se cruzam até a minha cabeça dar quase um nó desmedido.

Acredito que os grandes gestos quase toda a gente os conseguiriam fazer, de uma forma ou de outra, numa ou noutra dimensão. Os pequenos, esses, já não têm uma altivez tão relativa. Exigem esforço de pensamento e de acção. E desse eu nunca me hei-de cansar. Gosto de pensar. Gosto que pensem em mim e que saibam que eu penso neles.

Tudo isto pelo simples facto de gostar muito de pessoas. E acrescento: dos pormenores das pessoas.

(A fotografia foi tirada em Madrid, nas férias de Verão)

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