Sentou-se na areia fria e cruzou as pernas. Fixou o olhar no mar e as lágrimas quase que se tornavam bebíveis de tão fortemente lhe escorrerem pela face, igualmente gelada.
Os dias de Fevereiro serão sempre uma incógnita de sol, vento e chuva. Quase que as estações se trocam entre si e rodam à volta de dias mais ou menos equivalentes ao esperado. Às vezes parece que a fortaleza do Inverno é de tal modo agreste que tudo se ergue e move; outras, no entanto, o sol espreita nas árvores ainda despidas e as ondas deste e doutros mares amansam calorosamente, terminado sempre em espuma.
Naquele dia os pensamentos germinavam em torno de sonhos ainda não concretizados e quase que adiados por tempo indeterminado. E custa sempre retirar dos planos objectivos que acarretam sorrisos silenciosos. Na verdade, o acto de projectar pode trazer tanto de bom como de mau. Não sei qual a melhor vertente desta ambivalência, mas todas as decepções magoam e custam a aceitar. É assim em tudo o que move as vidas.
Ajeitou-se naquela areia e instintivamente enterrou os dedos nas partículas finas que, de um momento para o outro, se podem tornar pó.
O céu estava a ganhar a cor de gente crescida e quase que se dividia em três camadas. De facto, a imaginação faz milagres. As mãos estavam cada vez mais enterradas na areia e a vontade das afundar ali mesmo era tão forte como a de deitar cá para fora tudo o que sentia. Por momentos, a solidão ajuda-nos a descomprimir e a encaixar dissabores.
Ele, ainda não vos disse, mas era um jovem de trinta anos. Talvez sem nome. Quase que na flor da idade, a avaliar pelas experiências tardias que a (in)dependência familiar vai causando.
Eu, apesar de ter sonhado com ele e de ter acordado com esta imagem que vos descrevi, também não sei encadear os motivos.
Que cada um os interprete da melhor forma. Ou que cada transporte a vivência pessoal para supostas causas.
O que sei, isso sim, e lembro-me claramente, é que o céu estava lindo e, juntamente com a areia, quase que fazia as tais três camadas.
Há, na realidade, sonhos que ficam a meio. Por completo, só a esperança de terem continuidade. Como acontece aqui.
(A fotografia tem um ano, tirada na Costa da Caparica)

